
SÃO PAULO - A companhia chinesa State Grid International Development (SGID) surpreendeu o mercado ao comprar por cerca de R$ 3 bilhões mais de 3 mil quilômetros de linhas de transmissão que pertenciam à Plena Transmissora, companhia controlada por empresas espanholas. O negócio fechado pela estatal da China, colocada como a maior transmissora do mundo, inclui a aquisição de sete subestações.
Especialistas ouvidos pelo DCI consideraram que essa mudança repentina do leque de investidores pode ser reflexo do excesso de capital chinês versus dificuldades econômicas europeias.
Para o presidente da Andrade & Canellas, João Carlos Mello, a aquisição chinesa é uma "porta de entrada" para os chineses no setor elétrico do País. "Os interesses não são apenas pelas linhas de transmissão, mas também pelo fornecimento de equipamentos que poderão ser usados nessas linhas e controlados pelos chineses", afirma Mello.
As linhas de transmissão terão um firme retorno para investidor chinês. "A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) não impedirá o negócio, desde que a State Grid mostre capacidade financeira e habilidade para liderar o negócio", afirma o presidente da Andrade e Comercial Canellas.
Para Mello, a companhia chinesa deverá atuar no Brasil, mas não contará com aportes vindos, por exemplo, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES). "Mas a empresa participará do setor de infraestrutura, que no Brasil precisa de muitas obras", finalizou o executivo.
Ativos
Os ativos adquiridos pela State Grid, antes pertencente às companhias Isolux, Cobra e Elecnor, já eram alvo de especulações sobre sua venda, mas a empresas locais. "Havia boatos de que a Plena ia sair dos sistemas de transmissão, mas o que parecia mais viável era a compra por um grupo brasileiro", comentou César de Barros Pinto, diretor executivo da Associação Brasileira das Empresas de Transmissão de Energia Elétrica (Abrate).
Ao todo, foram vendidas integralmente cinco concessões da Plena à estatal da China, sendo que a companhia de fora ficou com mais de 70% das outras duas empresas, ou seja, com praticamente a totalidade dos negócios. O executivo disse que a impressão, a princípio, era de que os chineses estavam interessados somente no fornecimento de equipamentos, como cabos para linhas e transmissores, área em que são competitivos. Por outro lado, o diretor da Abrate alertou de que agora ficou aparente de que eles querem aumentar sua participação nos sistemas.
Em relação à licitação, em junho, de R$ 700 milhões que correspondem a 700 quilômetros de linhas e a 11 subestações, Barros crê que elas devem ficar em mãos brasileiras. "Uma coisa é uma linha de mais de 1,6 mil quilômetros, mas os que virão agora são lotes pequenos que favorecem a operação por quem já trabalha naquelas regiões", analisou.
A Abrate representa a maiores empresas de transmissão do País, como Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), Companhia Paranaense de Energia (Copel) e Furnas, dentre outras,
Mercado livre
O interesse chinês no Brasil pode ser justificado pelo consumo de energia, que vem crescendo a um ritmo forte em 2010. Em abril, o aumento foi de 18,1% se comparado ao mesmo período de ano anterior. Esta é a conclusão do índice Setorial compilado pela Comerc, maior gestora independente de energia elétrica do País. Segundo o presidente da empresa, Cristopher Vlavianos, a elevação tem um componente pós-crise e mostra a aceleração industrial do Brasil. "Em abril de 2009, ainda era possível sentir os efeitos da crise econômica mundial, quando houve queda significativa da produção em diversos setores, como, por exemplo, mineração e siderurgia", afirma o presidente da Comerc.
Segundo ele, o Brasil está em plena retomada da produção, associada ao aquecimento da economia.
A variação negativa nos setores de comércio e varejo (-5,37%) teve influência das temperaturas mais amenas, que reduzem a necessidade de ar condicionado.
Já a queda do uso de energia na indústria de vidros (-6,21%) se deveu em grande parte à produção destinada ao setor de autopeças. Com o fim da redução do IPI para o consumidor final, a demanda por veículos foi abalada no período, afetando, consequentemente, a produção de vidros destinados ao setor. O índice elaborado pela Comerc acompanha a evolução do consumo energético monitorado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE).



Nenhum comentário:
Postar um comentário